Charles Bovary c'est moi?
Relendo Madame Bovary, não pude deixar de me surpreender com meu apreço instantâneo pelo enfadonho Charles. Se Emma busca o extraordinário, Charles se contenta com o terreno. A vida mais ou menos, o arroz com feijão e o papai e mamãe do dia a dia lhes são mais do que suficiente. Li Madame Bovary no meu primeiro semestre de faculdade e apresentei um seminário com outros colegas sobre o livro. O negócio foi tão bem sucedido que o professor dormiu enquanto apresentávamos.
Nesse período da minha vida, eu, encantada pelos feitiços do Kerouac, tinha mesmo me motivado a tatuar uma frase de seu livro mais famoso. Ah, a juventude, não é mesmo? Eu seguia, meio tresloucada meio medrosa, na busca pelo extraordinário da vida. Pessoas elogiavam minha espontaneidade e propensão natural ao adultério (risos). Hoje eu cresci, amadureci e me sinto uma grande Charles Bovary contemporânea. Triste? Não sei. Mas um papai e mamãe bem feito me basta. Talvez com alguma indecência pornográfica eventual, porque afinal de contas não estamos mortos, mas o ponto aqui é que eu acho injusta e cruel a leitura habitual do meu comparsa Charles que, nada mais é, em sua mediocridade, que uma pessoa simples tentando ser feliz (apenas com suas escolhas e sua vida como obstáculos).
Lembro-me do filme Vicky Cristina Barcelona (só não consigo me lembrar quem dirigiu esse filme, pois não quero que o substack me cancele). Em uma cena maravilhosa, Penélope Cruz como a genial María Elena diz, revoltada, a uma Scarlett Johansson insossa: “chronic dissatisfaction. thats what you have: chronic dissatisfaction”. Scarlett Johansson e Madame Bovary? Algo a se pensar.
Tal diagnóstico pode ser proferido, com a agilidade das redes sociais, a quase qualquer um que a habite. estamos correndo atrás do extraordinário não só distante, como movediço, fantasmagórico, ardiloso e, no fim, impossível. Humbert Humbert, um homem sem dificuldades financeiras ou morais para correr atrás dos seus sonhos, também chegava a se frustrar com a concretização dos seus desejos. Gente como a gente? Enfim, algo a se pensar.
Como Emma bem percebeu, permitir que nossas fantasias mais recônditas encontrem a luz do dia pode ter sua dose de prazer, na melhor das hipóteses, mas que sempre coabitará com a inevitável frustração das expectativas não atendidas. É por isso que, no meu julgamento, repetirei, em minha defesa: Charles Bovary c’est moi!



Charlinho, você gosta mais de estudar ou de batata?